infeção em Artroplastia

A infeção em Artroplastia

A infeção é uma das complicações mais frequentes associadas às artroplastias. Em Portugal, no ano de 2011, as infeções foram responsáveis por 21% das revisões de próteses do joelho e 12% no caso da anca (segunda e terceira causa em frequência, respetivamente). Contudo, os resultados no tratamento desta patologia têm sido tradicionalmente maus. O trabalho levado a cabo pela comissão organizadora do Tema do XXX Congresso Nacional de Ortopedia, em 2010, demonstrou isso mesmo. Num estudo retrospetivo multicêntrico, que envolveu 16 hospitais do País, o sucesso global no tratamento de quase 500 infeções protésicas rondou os 50%, quer para o joelho quer para a anca.

São vários os motivos que podem ajudar a explicar esta baixa taxa de sucesso. Um dos principais motivos continua a ser uma certa barreira psicológica entre os cirurgiões em admitir esta complicação, o que contribui para um atraso no diagnóstico que pode revelar-se crucial para o sucesso ou não de uma tentativa de debelar a infeção com preservação da prótese.

É necessário que se perceba que uma infeção associada a um implante se manifesta de forma muito diferente do tradicional paradigma. Um quadro florido com sinais inflamatórios exuberantes, drenagem purulenta ou febre é a exceção e não a regra. A apresentação é, geralmente, muito mais subtil, como, por exemplo, uma dificuldade de cicatrização ou drenagem persistente no pós-operatório precoce. No caso de infeções crónicas, o diagnóstico diferencial com descolagem assética pode ser ainda mais difícil, não havendo, até à data, nenhum exame ou teste laboratorial que garanta 100% de exatidão.

Eliminar o biofilme bacteriano

O principal responsável por esta mudança de paradigma é o biofilme bacteriano que se forma na superfície do implante metálico. É este biofilme que provoca um estado inflamatório crónico de baixo grau no interface com o osso, que provoca dor e até mesmo uma eventual descolagem da prótese. É também este biofilme que dificulta o diagnóstico e tratamento das infeções crónicas, ao albergar as bactérias e, dessa forma, torná-las muitas vezes indetetáveis pelos tradicionais meios de diagnóstico, ao mesmo tempo que as torna resistentes ao tratamento antibiótico convencional.

Assim, atualmente, a única solução para eliminar o biofilme é a extra- ção da prótese, ou seja, a cirurgia de revisão. Se essa revisão pode ser feita num tempo único ou em dois tempos, depende, em grande medida, da virulência da espécie bacteriana infetante, das condições locais de partes moles, eventuais defeitos ósseos existentes e, naturalmente, da experiência do cirurgião.

Para além do impacto para o doente, as infeções são fonte de significativos custos acrescidos para os sistemas de saúde. Entre outros, são fatores a ter em conta a(s) cirurgia(s) de revisão, longos internamentos e os antibióticos dispendiosos necessários para o tratamento de bactérias multirresistentes cada vez mais frequentes. Os custos são ainda maiores se contabilizarmos os custos indiretos, que derivam da incapacidade do doente, em especial nos casos de insucesso no tratamento.

Em tempos de crise, a responsabilidade de refletir sobre este problema cabe também, e sobretudo, a nós, cirurgiões, pois seremos os únicos com os conhecimentos técnicos indispensáveis. É preciso racionalizar recursos e otimizar resultados no tratamento. É necessá- rio também investir na prevenção, reconhecendo que será impossível suprir completamente esta complicação.

Publicado em Newsletter RPA | Agosto, Setembro 2012

Leave a Comment